30.9.11

Sobre o andar

Eu gosto de levitar sobre as coisas
de andar suavemente,
até com certa urgência relaxada
mas sem tropeçar nos rasgos
da minha mente

20.5.11

Um quase poema de amor

Um dia me distraio
e deixo a vida escorrer pelos meus poros
e viro poça, prego, pássaro...
enfim, passo
e fico.

Um dia me distraio e escrevo um poema de verdade
E digo algo profundo, pessimista
plausível.

Um dia me distraio e esqueço que só sei escrever sobre amor
mas até lá
todas as minhas palavras são pra ti.

24.3.10

A espera

Eu rodopio e tudo gira, gira, gira.
Todas as cores se misturam,
todos os sons se calam
e todos os sentidos se apuram

E eu rodopio e tudo gira e gira e gira
e todas as pessoas se misturam
e todas as vozes se calam
e todas as mágoas se apuram

E eu giro e giro e giro e giro
e tudo some e reaparece diferente
e tudo tem um gosto mais ardente
e tudo tem um cheiro mais quente

E eu giro e giro e giro e giro e giro
e giro até que caio, mas tudo ainda gira.
Tudo rodopia, menos o tempo,
que ficou imóvel enquanto te espero.

Quase dormindo

Grandes borboletas sobre a minha cama
E pequenos hipopótamos no meu café.
Crianças gritam na rua, todas sujas de lama,
mas sei que estou só esperando, até

que os hipopótamos verdes e roxos dancem
e saltem na mesa, no sofá, nas cadeiras
e que as borboletas gigantes alcancem
das coisas concretas, as trêmulas beiras.

Então estarei dormindo, não estarei mais aqui
Não estarei em lugar nenhum, a não ser em mim.
E nesse mundo não-mundo cor de colibri
estarei contigo, de verdade, enfim.

9.3.10

Leibniz

Meus pensamentos mais importantes
não passam pela minha cabeça
mas pela minha nuca.

24.1.10

A leitora

Adorava ler, mas sempre deixava os livros pela metade.
Tinha a sensação, com isso, de que a vida continuava para as personagens. De que haveria imprevistos, reviravoltas, surpresas. De que tudo poderia acontecer.

A sua vida, porém, era sempre igual.

23.1.10

Pergunte ao pó ( e às manchas)

Não gostava de fazer limpeza. Não que fosse preguiçosa. É que sempre achou as manchas e o pó bonitos: via arte no acaso das formas.

Até que sua mãe argumentou: o efêmero pode tornar o acaso ainda mais belo.

Agora, todo sábado é dia de faxina.

20.1.10

Pedra

E no meio do caminho
eu

Dilema

Barulho incomoda.
O silêncio também.

18.1.10

Ícaro moderno

Um dia comprei um par de asas brancas e saí voando.
Saí de manhã cedo, o céu ainda cor de rosa.
Mas o céu foi alaranjando, amarelando
esquentando, queimando, cegando.
Até que, ao meio dia, minhas asas derreteram.
Elas eram de plástico
como quase tudo hoje.

7.1.10

Na estrada

Durante a viagem diária que durava sempre mais de uma hora, ela imaginava que o ônibus passava por outras dimensões - e que naquelas casas ao lado da estrada viviam pessoas de 500 anos de idade, e pessoas nascidas em outros planetas, e pessoas que nunca haviam nascido mas que, mesmo assim, viviam.

Imaginava também que aquele senhor que sempre entrava duas estações depois dela subir e descia duas estações antes dela descer era um espião, enviado para seguir aquela mulher que sempre parecia dormir e sonhar.

Imaginava ainda que aquela mulher era, na verdade, uma fada. Mas uma fada má. E inteligente e - sem aquela máscara de cansaço - muito bonita.

Ela não sabia que a realidade era muito mais interessante.

5.1.10

Ode ao verão gaúcho

Meus pensamentos evaporam
grudam no teto
e de madrugada
caem novamente
como chuva
deformados
- e tenho pesadelos.

10.2.09

Diálogo quase poético numa manhã de fevereiro

Que calor!
Pois é,
um horror!

11.11.08

Ode ao Agora

Talvez um dia eu compre uma casa
Talvez um dia o meu filho nasça
Talvez um dia eu até voe sem asa
Mas não agora

Talvez um dia eu aprenda
japonês e hebraico e a fazer renda
e o que Hegel queria dizer, e a pagar uma prenda
Mas não agora

Talvez um dia eu veja a Europa
Talvez um dia eu vença uma Copa
Talvez um dia eu coma uma sopa
E talvez um dia compre uma nova roupa
Mas não agora

Talvez um dia eu esqueça
Talvez um dia ele apareça
Talvez um dia eu perca a cabeça
E desça, e desça, e desça...
Mas não agora

E talvez
(veja bem, talvez)
um dia eu morra
Mas não agora

10.10.08

Frustração de escritora

Queria escrever um poema jazz
Mas sou perseguida por valsinhas

8.10.08

Sonho de escritora

Queria descobrir o que é mais simples do que o branco.
Do que o silêncio.
Do que o nada.

5.10.08

Para que mentir?

Adoro o cheiro de pó desta cidade
Adoro os dias cinzas e sem ar
Adoro dizer que não tenho tempo
E adoro, mais do que tudo,
teu gosto azedo e teu olhar cansado.

Pedra

E no meio do caminho
havia eu.